terça-feira, 3 de julho de 2012

Astronomia


Esqueço rápido as maravilhas de horas atrás, a conversa despretensiosa sobre frutas e comidas favoritas, cenas de infância e sobre ser eu uma boa mãe ou não, Eurocopa, coisas banais e leves que combinam com um sábado cansado como foi o nosso. A culpa não é minha de tanto girar por entre os detalhes e os por vir aí, o medo da efemeridade dos relacionamentos - hoje, líquidos - e toda essa beleza que passa quando a gente se abraça e são recém 22h20. E não se larga, gruda pé no braço, espia pelo espelho o silêncio concentrado, ri do jeitinho (sempre tão unique) do outro, essas coisas de quem é apaixonado e ponto.
Só que eu penso demais, é isso. Dá um medo danado de acordar de manhã e ter um acidente, esses sumiços de vez em quando porque o dia é puxado e quase engole, de se perder e nunca mais se encontrar no abraço apertado onde me sinto tão e sempre em casa, aliviada, mais confortável num mundo que condena essa minha agitação autodestrutiva, algumas vezes em forma de impulsividade constante. Porque é nessas noites de fim de semana onde eu visto uma camisa largona e coloco meias brancas quentinhas, de pernas pro ar, que eu me permito uma autenticidade visitada apenas por quem conhece as constelações de pintinhas da minha barriga - e sabe apreciar.
E depois de amor declarado na surpresa, sono bom enquanto o a hiperatividade se fazia canalizada, escovar os dentes lado a lado, conversar antes de dormir e cair no sono, café da manhã com futebol na temática, leitura conjunta na sala e sol bom antes do almoço, é sair do carro e fechar o dedo na porta pro efeito Cinderela da minha paixão pensante compulsória começar. A falta que eu sinto só porque é domingo e tudo tem registro de quase quase perfeição começa. Assola. Minha paranoia começa a ter um efeito tão desgastante que nem mesmo a criadora - no caso, eu - aguento tanta loucura imaginativa. Às vezes o medo some, noutras vem em dose redobrada e sou sincera, digo logo, demora um pouco, a gente se acerta e passa: é fechar as pupilas e voltar pra calmaria de nós dois entrelaçados que o coração afina e os presságios voam como borboletas para fora dessa minha cabecinha já tão infestada. Assombrosa uma vida que não inclua o calção azul ou a calça molinha. Longe, eu sinto um temor de estimação que alimento com bobagens que não existem e são minúsculas se em combate a esse sentir tão bom, avivador, e completo que a gente sente.
Como é ótimo estar numa fase onde se entende tanto e conhece o outro como a palma da mão e os cantos do corpo, os sinais emitidos entre um olhar e o não-dito, sincronia que funciona de pensamentos e sentidos. Uma das mais maravilhosas fases, quase quinze meses de convívio direto: leveza, lazer, felicidade. Mas que ainda precisa de água, mimo e acalento diários porque quer ter certeza de que não é só sonho e de fato existe, faz raízes e um dia dá flor. Quer tanto mais dessa cumplicidade a dois, do tempo bem gasto juntos, do efeito sorriso imediato assim que se reencontram os olhos de cor praticamente igual, tranquilos. Por isso, reflito tanto e vasculho muito esse meu cérebro que não descansa quase nunca, tenho apreço pelo detalhismo e uma queda pela perfeição.
Reviso conversas, volto em momentos cruciais, checo bem minhas certezas e faço questão de baixar toda e qualquer expectativa.  Seja em praia, noite fresquinha, festa lotada, choro compulsivo e o abraço mais performático desse mundo, te encontro cheiroso desse perfume que gruda sempre nas minhas roupas e beberia de canudinho, de possível. Com a cara de levado, de sono, de mau - que o amor é por todas, todinhas. Assim em paz, novamente certa de que é de dias assim que a memória matéria prima, toda feita. Ainda bem.



Camila Paier.

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