sábado, 21 de abril de 2012

Carta aberta para Caio Fernando Abreu

É assim, com um pouco de vergonha de admitir, que só depois de um ano morando no mesmo bairro, a quatro quadras, que resolvi te visitar. Eu faço as coisas restritamente quando tenho vontade, você sabe como é. Meu agosto foi amargo e durou até outubro. Aí decidi: novembro ou nada. Fui te ver. Eu não esperava beber quente algum de seus chás ou mesmo a casa aberta. Nada de dragões, mandalas, morangos, agostos, chás, ovos apunhalados ou ovelhas negras.
Ali onde você escolheu pra viver seus derradeiros dias, após o diagnóstico daquela praga, eu fiquei parado, olhando. Eu queria dizer que senti uma coisa mística, um frisson semelhante ao ler "Sargento Garcia" ou "Sem Ana, Blues", mas não. Eu queria ter encontrado um outro lunático fotografando ou talvez uma garota sentada no meio-fio, entregando pra deus, vai ver porque hoje em dia não existe tanta gente disposta a, como é?, "pegar no seu queixo perguntando - o que foi guria?". Pois é, como você sempre reparou, a vida segue, e não anda nada fácil. Está faltando tudo - trabalho, dinheiro, honestidade, união, paz, felicidade, diversão - e amor o que é mesmo?
Também não queria dizer isto, mas você está perdendo o melhor da festa. Um dia, numa crônica na Zero Hora, não sei se você se lembra - é lá de 1995 - você escreveu algo como "depois que comecei a cuidar do jardim aprendi tanta coisa, uma delas é que não se deve decretar a morte de um girassol antes do tempo, compreendeu?" Sim, o recado foi compreendido, Girassol. Tenho uma má notícia (ou não): você meio que voltou, sei lá, te ressuscitaram. De um jeito estranho, Caio vive. Como um rockstar, talvez. Caio Fernando Abreu é o novo Caio Fernando Abreu.
Bem, acontece que inventaram um troço de internet. É tipo um telefone com imagem, só que bem mais barato, livre e instantâneo. Tem gente que não sabe usar, mas, cara, já está fazendo páreo com as bobagens da tevê. Olha, não existe horário político ou nobre, as moscas não giram só em volta da grana. Como vou explicar? Meio que a galera decide quem sobe ou desce, saca? Então. Você está lá, em voga, em vários, milhares de canais. As pessoas sempre rogaram por mais cultura e afetuosidade, taí. Ah, seus livros estão na vitrine, quase todos. Também estou atrás de Dulce Veiga? Onde andará?
Você não sabe (ou sabe), mas as pessoas estão lendo mais, tentando sentir mais, sorrir mais, se comunicando e compartilhando mais, escrevendo mais, emburrecendo menos com a televisão e comendo menos morangos mofados. Tem que ver, coisa mais linda. De um jeito esquisito, prático e por vezes frívolo, é gente interligada pelo fio condutor do trabalho, das coisas, da saudade que você deixou. É como se todos fôssemos um, como se cada um de nós fôssemos responsáveis por respirar uma célula do seu corpo. Anos depois, só agora. É tudo tão irônico, não?
Quiçá foi melhor assim, Machado de Assis também não foi devidamente honrado em vida e, no duro, você é o maior depois dele, eu acho. Mas há uma lição aí, viver como aquela do Sinatra, "My Way". Você tinha razão, dá mais certo. Ah, obrigado por tudo, principalmente por me levar a Jack Kerouac, que me levou a Bukowski, que me levou a John Fante e por aí vai. Me fez quem eu sou, e sou feliz por causa disso. De um modo ou outro, fazer alguém mais feliz não é pouca coisa, rapaz.
Sinto muito, mas há boatos de que o sobrado de estilo espanhol colonial agora abriga uma família. Pintaram de verde e vão instalar uma piscina. Parecem legais e alegres. Inegavelmente, há mais vida ali. É a impermanência, de um dia pro outro as coisas deixam de existir, nada dura para sempre. É o jogo, quase sempre a felicidade de um, começa na queda de outro. Um beijo carinhoso na testa, com "toda nossa saudade e o nosso amor de sempre". Descanse bem tranquilo. Se conseguir, claro. Porque daqui vamos continuar fazendo barulho.




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